blog da oficina literária


UM TEXTO BONITO EM DISCUSSÃO:

“VERSOS PERVERSOS XVII”,

DE JOÃO ANDRADE

.....................................

 

Versos Perversos XVII

  

                 Como a filho roto, aborto aberto ao sol, dediquei aos meus versos meus rostos, meus restos, meu mal-gosto, meu desgosto, meu encosto, minhas tardes molhadas, meu adeus sem gesto, meu eu indisposto. Fui sorriso na partida, fui adeus na chegada, fui meu, fui teu, ateu diante de deus, fui deus diante do caos, fui caos diante do nada, fui nada nas noites geladas, nada diante do nada. Como a um corpo morto, pouco roto aborto aberto, escrevi certo por linhas certas, abri os poros, os olhos, as portas, escrevi torto por linhas tortas, escrevi morto por linhas mortas, escrevi parco por linhas porcas, escrevi pouco, aborto, talvez, remorso. Fui meu, fui teu, fui nosso, a solidão circulando em minhas veias, em minhas rimas, em minha língua, em meus passos, em meus ossos. Ser mais do que sou, não vôo, não vou, não passo, não posso.   

João Andrade

Escrito por blog_oficina às 20h31
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Versos perversos XVII - Cont.

Os versos deste poeta correm como um rio revolto, em corredeiras, cascatas e cachoeiras em direção a um mar de entendimento. A velocidade criada capaz de transpor pedras, mesmo as mais afiadas, prova que um poema supera os obstáculos mais intransponíveis, e vai libertando água de neblina, desfumaçando a poesia que se encontra encoberta nas veredas de uma curva radical de um rio. Falar de si com abertura serena de um propósito imaginário no qual nem ao menos se sente o definitivo é uma forma de acusar um elo pertencente a corrente de simplesmente unir, ao invés de partir dali ou conservar. Um poema feito desta forma abaixo agradece a poesia, por ser uma forma abstrata de dizer aquilo que nunca iremos desconhecer. Talvez nem plenamente conhecer, como o motivo pelo qual nos mantém vivo o respirar.

  Grande abraço, ricardo pisoler



Escrito por blog_oficina às 20h28
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Versos perversos XVII - Cont.

Esse João Andrade...  

  Tem jeito não. Parece um menino brincando de fazer experiências (tal qual o seu filho).

  Mas o poeta é isso mesmo, como alerta José Paulo Paes: “Poesia é brincar com palavras”.

  No entanto esse jogo do poeta, vai muito além do “jogo jogado das palavras”. Sua mensagem salta aos olhos através dos significantes semelhantes:

  

“... roto, aborto aberto...”

“...rostos / restos”

“... desgosto / encosto / indisposto”

  

  ... e por aí vai ao longo dos seus versos pervertidos.

  Talvez seja nessa experiência, tal qual uma criança, brincando de mostrar e esconder uma travessura. João Andrade nos mostra pelo significante um “jogo de palavras”, mas estas não estão aleatórias. E me valendo de outro poeta, o Belchior, que diz “...eu quero que esse canto torto corte a carne de vocês”. Nesse sentido, percebo que essa “brincadeira”, do poeta em questão, trata-se de uma brincadeira “maldosa”, fazendo jus ao seu título: versos perversos.



Escrito por blog_oficina às 20h23
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Versos perversos XVII - Cont.

O poema vem em 1ª pessoa, mas que primeira é esta?

Quem será sujeito poético desses versos?

O João Andrade?

O poeta?

O leitor?

Os cúmplices?

Ou todos nós?

  

  Não importa. Esse é que é o grande barato também da poesia. Ela não precisa responder (senão bastava ser conceito), no entanto... cabe a ela, somente “incomodar”, fazer com que o leitor não se sinta indiferente.  

  Os versos perversos... ah como são perversos. Ora porque eu não sei o significado de tal palavra ou expressão naquele momento da leitura, ora porque eu não sei o que o autor quis dizer, ora porque eu não sei quem é o sujeito (que pode ser até eu – retórico).  

  Nossa, João, vai incomodar assim bem noutro lugar...

  Menino, você é demais.

 (Margot Marie)

Escrito por blog_oficina às 20h20
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Versos perversos XVII - Cont.

Analisando:

   Pergunta: Por que o título do texto é “versos” se o texto não está construído na forma de versos?  

  Um texto dinâmico, o autor usou palavras de forma a imprimir um ritmo agradável ao texto. Não sei bem que tipo de texto seria este. Talvéz uma prosa poética? O que os colegas da lista acham?  

  Encontrei, neste texto, a nostalgia que vejo nos textos de Cecilia Meirelles. A poetisa sabe como nunca dizer o que foi com uma melancolia brilhante. Que nos deixa boquiaberto e nos faz pensar sobre o nosso passado.

  Este texto é assim também, a cada afirmação do "eu fui" nós paramos para pensar se também o fomos, quando fomos e porque fomos. O texto mexeu com alguns sentimentos passados da minha identidade, como leitor e como pessoa. O autor chegou lá. Bom Texto.  

  Abraço  

  Hilton Junior



Escrito por blog_oficina às 20h10
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Versos perversos XVII - Cont.

escrevi morto por linhas mortas

escrevi parco por linhas porcas

 

São realmente perversos os versos de João Andrade no compasso XVII dessa série.

Perversos porque acendem uma vontade de lê-los e relê-los, perversos por que são identidade e se imprimem na retina como tal.

 

dediquei aos meus versos meus rostos

 

Versos tão perversos que não se dedicam, mas exigem dedicação. Versos tão perversos que não nascem, são abortados, e tomam de seu instrumento, o autor, sentimentos avessos, sorrisos na partida, adeus nas chegadas.

Parabéns ao autor por exorcizar tais versos, ainda que em linha contínua, mostra maior de que estes são versos perversos, abortos, expurgos.

Abraço.

Anderson Santos



Escrito por blog_oficina às 20h07
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Versos perversos XVII - Cont.

VERSOS PERVERSOS XVII

Um texto de João Andrade

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Conheço uma escritora, cuja especialidade é a Crítica Literária. Ela diz que não precisa ler mais de um livro de um mesmo escritor para fazer algum comentário sobre ele. Pois – opinião dela – todos os livros de um mesmo autor levam à mesma conclusão. Então, pra que conhecer uma obra completa para fazer análise crítica?

Eu já não concordo com essa opinião. Há escritores – até os mais consagrados – que escrevem livros & livros e, dentre estes, um foge completamente ao seu estilo e à sua qualidade, sendo mais (ou menos), melhor (ou pior) que os outros. E etc.!

Este texto “Versos perversos XVII”, de João Andrade, não foge à qualidade dos textos desse autor, que prima pelo novo, em linguagem, estilo, conteúdo e forma. Há uns textos de Andrade, porém, que escapam  a essa qualificação... o que não vem ao caso agora.



Escrito por blog_oficina às 20h03
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Versos perversos XVII - Cont.

“Versos perversos XVII” é uma prosa-poética deliciosa, que justifica a tradição desse autor, e o interessante na sua construção é que está escrito na base da associação de idéias, bem ao gosto dos surrealistas (que na minha opinião nada de novo se fez depois disso) – e quem sou eu para criticar as chatices dos poemas-processo, poesia-concreta, e etc. e tal?

Mas, vamos ao que interessa. Acredito que o João Andrade deu um cochilo quando escreveu a palavra “mal-gosto”  com L, quando o certo seria “mau-gosto” com U. E fico pensando que essa palavra também poderia ser escrita com L quando o gôsto fosse gósto (escrevo assim para os leitores entenderem os sons da palavra fechados e abertos). Para se entender o que quero dizer é só escrever a palavra assim:

 

mau-gosto / bom-gosto,

e

mal-gósto / bem-gósto.

 

Esses detalhes, se bem que pouco valham para entendimento do texto, valem muito quando, por exemplo, o mesmo chega às escolas de primeiro e segundo graus, das quais nunca deveria sair, e os professores de Português ou engolem o texto do jeito que está, e assim, passam-no para os alunos como coisa certa, (estando errada) ou vão ter que explicar aos alunos o lapso do autor que passou para a eternidade...

E, desta forma, ouso pedir explicações ao autor sobre qual foi realmente o sentido da palavra “mal-gosto”, que ele usou pois este ponto não está claro no texto .

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).



Escrito por blog_oficina às 20h01
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Versos perversos XVII - Cont.

Cara poetisa,  

  Versos Perversos é um livro de 90 poemas que estou fazendo. Nele, procuro seguir uma proposta literária diferente do livro anterior o Por sobre as cabeças. No novo livro, procuro usar mais o sentir, o instinto, o deixar fluir das palavras com um controle mínimo da técnica.

  Acredito que a escolha de não colocar os versos na forma tradicional, reflete mais a dinâmica do que quero proporcionar ao texto.

  Como no livro anterior, os colegas da lista foram e são as minhas “cobaias”. Dessa forma, o poema em questão saiu e logo em seguida foi colocado na lista.

Não fiz, mas deveria ter feito, uma revisão. A expressão em questão deveria ter sido escrita com “u”, pois ao modificar um substantivo é de fato um adjetivo e não advérbio como a escrita com “l” sugere.

  Quero aproveitar para agradecer a todos que me leram e comentaram. A opinião dos colegas é de extrema importância na escolha dos poemas que farão parte do meu novo projeto.

Saudações e cumprimentos

João Andrade



Escrito por blog_oficina às 19h59
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Versos perversos XVII - Final

Olá, João Andrade? Estimo muito que você esteja preparando um novo livro. Viu? E adoro ser sua "cobaia" preferida! Saludos e obrigada pela suas explicações. Maria José Limeira.

..........

 

Obrigado por tudo e um beijo em seu coração.

  João Andrade



Escrito por blog_oficina às 19h58
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UM TEXTO BONITO EM DESTAQUE:

“CANTIGA DA ESPERANÇA”, DE MANUEL C. AMOR

..................................

 

Cantiga da esperança

 

“As nossas vozes

Não podem estar silentes

Reencontremo-nos nós mesmos...”

Maria Eugénia Neto, in O Soar dos Quissanges, 2002

 

 

O nosso destino

é sempre esta festa

a despontar na aurora de cada um

No crepúsculo de cada qual.

 

Vamos varrer as “cinzas da morte.”

Que chegou o tempo do emergir a vida

festejada em terreiro limpo de tristezas.

 

E quando a dicanza

começar nos seus ranque ranque

A desafiar o quissange

Naquele clamoroso cântico

cavalgando chanas e mulolas

Deixa a alma

escorregar na tua pele

 

O sangue correr dentro de ti

como água dos rios

que nunca olha para traz .



Escrito por blog_oficina às 23h05
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Cantiga da esperança - Cont.

Balança o corpo

como um dongo sem destino

Baçulando a desesperança

Que  eu

ainda acredito no sonho do Poeta

 

“Um só povo uma só nação”

Não é utopia não

 

 

Manuel C. Amor

Rio Maior, Setembro 2006.

 



Escrito por blog_oficina às 23h03
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Cantiga da esperança - Final

CANTIGA DA ESPERANÇA

Um texto de Manuel C. Amor

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

A esperança é a última que morre. Verde-esperança. E blá-blá-blá & tome esperança. Sempre! Ah-ah! Meudeusdocéu! Valei-me, Santa Esperança! Deste tema banal, lugar-comum de todos os Países, das Nações, e dos Poetas do Mundo Inteiro, nosso amigo Manuel C. Amor criou um texto que cala fundo dentro de nós, mexe com nossos sentimentos, desarma-nos, e nos deixa assim tão vulneráveis quanto cartas de baralho num jogo de buraco.

Esse texto “Cantiga da esperança”, de José C. Amor, tem tudo para dizer que é um grande poema: metáforas ricas em versos livres e forma impecável, conteúdo, em duas línguas de um Português branco de um lado, e um Português assimilado dos negros, de outro lado.

Meninos & Meninas! Eu estou pasma! Pasma! Nunca havia visto algo assim tão inquietante, que mexe com meus brios de escritora, arrasa com todas as regras, mexe pra lá e pra cá, e faz nascer algo novo, que eu nem sei dizer ainda o que é.

Guimarães Rosa descobriu a linguagem oral de um outro Brasil, (o Brasil descalço, descamisado), sobre a qual construiu sua obra grandiosa.

Mia Couto trilhou o mesmo caminho, em outro País.

O texto de José C. Amor parece o resumo desses dois autores citados, onde Sonho e Realidade trocam de lugar a todo momento. Apesar de lidar com a Esperança, esse texto é de uma tristeza comovente...

É lindo este texto! E isto é tudo que tenho a dizer sobre ele.

Saludos, Poeta Lindo!

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)



Escrito por blog_oficina às 22h57
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