blog da oficina literária


Mais um texto em debate:

POR ESTE PRAZER DE QUEM CORTA O VENTO

 

A todos e a cada um dedico:

 

 

 

continua a manter viva a chama das palavras

 

com este à vontade de quem com elas conversa

 

deixando em versos a poesia do pensar e sentir

 

num fluir do mundo para a Língua como pátria

 

onde ninguém é pária a não ser se despreza

 

este prazer de ler e se fazer do som às formas

 

numa transformação da matéria essencial

 

 

 

da matéria deletéria dum pensamento vago

 

onde difuso se difunde o sonho que vagueia

 

sem marcar encontro com um pensamento

 

passa-se a procurar a história da ideia solta

 

até saltar e assaltar a atenção montando-a

 

como um puro sangue capaz de se deixar

 

levar por este prazer de quem corta o vento

 

 

 

Francisco Coimbra

 

FELIZ 2011!



Escrito por blog_oficina às 14h18
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Uma análise crítica do texto

 

POR ESTE PRAZER DE QUEM CORTA O VENTO

Um texto de Francisco Coimbra

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Ah! Esse texto bonito do meu amigo & compadre Francisco Coimbra, “Por este prazer de quem corta o vento”, cujos comentários sou suspeita de emitir, pelos laços de amizade & admiração que nos ligam.

Mas, independentemente de nossas afinidades, o texto bem merece nossa atenção, pelo muito que nos diz em linguagem, construção & figurações.

É uma espécie de bússola a quem se dispõe a fazer Poesia, como se fosse uma “carta a um jovem poeta” que alguém já escrevera em prosa.

Oh! E que carta tão bonita & inesquecível!  Tão bela quanto esse poema de Francisco Coimbra que se abre em confidências como se falasse a si mesmo, num momento de luz, que pretende dividir com seus pares. Com todas as letras.

O mais interessante é o movimento que o autor empresta ao texto, usando a figura do cavalo corredor que leva um escritor a capturar o etéreo em feliz cavalgada.

Criar Poesia é “manter viva a chama das palavras / com este à vontade de quem com elas conversa”.

É muito linda essa convivência com as palavras...

O texto é compacto. Os versos se unem uns aos outros, num continuado ritmo formando, talvez, mais uma prosa-poética do que mesmo um poema, o que, no entanto, não o desabona, pois a Poesia está presente como um todo.

O texto de Coimbra dá-nos a esperança (no início de 2011) de que outros textos bonitos virão.

 



Escrito por blog_oficina às 14h11
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Um poema de Julio Fernandes em discussão

 

Ouço a chuva que cai

 

ainda é sobre esses cantos madrigais

que o dia acorda e a vida

na sua ampla gruta

pulsa verdades de reflexo

que o despertar estabelece à nascença do daqui.

(e volta a pulsar o coração de menino

entre as perguntas que faço e as equações que resolvo

no justo sentido do tempo.)

 

tudo me é igual         também esse Deus

que o corpo molda em semelhança

de todos os céu mortos…

(estrelas apagadas do ardente desejo

sereno e esporádico

do silêncio das tardes.)

 

vivo dentro do sossego da sombra

dos meninos sem infância

os espaços que lhe pertenceram

tal como a mim

estas velhas in_glórias.

 

ouço a chuva que cai pelas paredes do quarto

onde habita o sono e o choro das estrelas

embaladas pelos ciprestes do medo –

tudo se me perde naquele assombro

envolto em chuva.

 

©JFernandes, 05.I.2011

 



Escrito por blog_oficina às 16h13
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A crítica ao texto

OUÇO A CHUVA QUE CAI

Um poema de Julio Fernandes

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

A chuva, para mim, é um tema amplo, que se abre a grandes anseios, ora em tragédias de enchentes, ora ligado às sementeiras que se aninham e florescem, ora porque parece muito com o barulho do mar e... por aí a fora.

Bem. Quanto ao poema “Ouço a chuva que cai”, de Julio Fernandes, é um texto compacto, bem encaminhado que, em nenhum momento, perde a linha, sendo de bom tamanho (nem curto nem longo).

O que mais se observa nesse autor é sua preocupação com a linguagem escorreita aliada com a profusão de metáforas que enriquece sua obra, vez que a delicadeza e  a leveza dos seus textos parecem fazê-los voar.

Sobre o poema em pauta, sugere naufragar em melancolias e solidões, entre passar do tempo e reminiscências, ressuscitando os ontens e recriando-os nos hojes, sem compromissos com as auroras que hão de vir.

Temerário seria dizer que gosto muito de tudo que esse autor escreve, porém digo-o mesmo: - É verdade, esse autor me encanta!



Escrito por blog_oficina às 16h12
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Mais um texto em debate

 

O nosso amor não é...não

 

O nosso amor não é como o sonhamos, não

nos arroja no chão.

 

O nosso amor não nos permite o céu

ele é o inferno, teu

e meu.

 

O nosso amor não nos dá paz

a guerra, é o que traz.

 

O nosso amor não é para cantar

é para gritar

de dor.

Assim é nosso amor.

 

O nosso amor à noite se serena.

Às vezes

ó por vezes,

muitas vezes,

a noite é tão pequena !

 

O nosso amor não nos deixa esquecer

o que não queremos ser

mas somos porque somos

somos, fomos, somos.

 

Por vezes, meu amor

não te conheço

nem te reconheço.

 

E no entanto amor

ó meu amor

meu amor,

meu amor

meu amor...

 

Diz-me quem sou

porque sem ti não sou.

 

Ensina o meu falar

 

Mostra-me como é olhar

 

Guia as minhas mãos

 

Afina o meu gostar

 

Aprende-me e ensina-me

a ouvir

 

Apura o meu cheirar

 

Mostra-me como é andar

 

Porque sem ti

 

não sou,

não estou

aqui,

 

nem quero

estar. 

 

Geraldes de Carvalho

 



Escrito por blog_oficina às 22h13
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O NOSSO AMOR NÃO É...NÃO

Um texto de Geraldes de Carvalho

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Esse poema “O nosso amor não é...não” de Geraldes de Carvalho, parece-nos que segue à risca o que Ítalo Calvino chama de Poesia (poetry), que quer dizer não apenas poema, mas toda e qualquer manifestação artística, seja literatura, escultura, cinema, teatro, e o mais que houver.

É um poema de amor (ou sobre o amor?) de uma leveza extraordinária, mas nem um pouco conciso, e nisso reside a beleza que o autor esbanja em linguagem, prolixidade, repetições.

À primeira vista, lugar-comum, por tratar-se de tema exaustivamente explorado por todos os poetas do mundo, queda-se na originalidade expondo o óbvio com novas letras e de uma forma tão delicada que comove.

O mais inquietante no texto é que, apesar de prolixo, nada escapa ao leitor, vez que não cansa, não irrita e nem se curva às críticas negativas que por acaso lhe façam.

É um texto simples (embora rico em metáforas), tem cadência e não lhe pesaria se alguém lhe pusesse música, embora música já seja...

É assim que o vejo, e olhem que eu sou uma leitora ranzinza, que não costuma abrir sorrisos a qualquer texto. E esta “análise crítica” não tem nada a ver com o academicismo que engessa as opiniões de tantos críticos de carreira.

Esta minha apreciação é fruto apenas de uma leitora compulsiva, cansada de internet, que cata, de site em site, um texto como este de Geraldes de Carvalho, cuja leitura é obrigação, ainda que  seja também deleite.



Escrito por blog_oficina às 22h10
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Mais um livro em análise:

OS GEMIDOS DA RUA

Um livro de Dôra Limeira

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

O que mais se ressalta nos textos de Dôra Limeira, em seu livro “Os gemidos da rua” é que parecem, um a um, fragmentos de um todo, onde personagens explícitos apenas mudam de nomes, ligados às mesmas angústias, aos mesmos conflitos, movimentando-se praticamente em cenários semelhantes.

A autora utiliza bem as ferramentas do gênero – ora contos curtos, ora contos longos – registrando-se assim uma preocupação com a forma por excelência. 

No meio da algaravia, onde as pessoas numa hora se perdem e em outra, tentam se encontrar, o que se observa é um personagem central que se faz presente em todas as narrações, embora não se explique: a solidão.

Destarte, é a solidão que mobiliza os seres desvalidos e patéticos que a autora expõe, sem medo, com seus rios escorrendo pernas abaixo, suas flatulências, seus vômitos mal-cheirosos e seus hálitos de boca de esgoto.

No entanto, em nenhum momento dá-se a liberdade que cada um almeja, condenando-se todos a sofrimentos intermináveis, como em prisões perpétuas.

São contos deprimentes & pessimistas, que casam bem com o título do livro (“Os gemidos da rua”) – aliás,  um título “do caralho”, como diria minha vó – que colocam em discussão as condições sociais do nosso tempo e retratam a luta por remissão de um povo cujo único crime é ser pobre.

 



Escrito por blog_oficina às 15h22
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Mais um texto em debate

 

Expulso da pensão, nada me restou senão me mudar finalmente para o subúrbio. Uma velha senhora me cedeu o cubículo do fundo do seu quintal em troca de uma quantia altíssima. Mas, tirando as baratas e mosquitos que resistiam à qualquer insectisida, devo dizer que vivia razoavelmente bem. Estranhamente, o crime era uma raridade por aqueles lados. É verdade que fui assaltado mais de uma vez, mas o objectivo dos meliantes nunca era me tirar o que quer que fosse, pois qualquer um que me pusesse os olhos em cima via que a minha situação financeira era alarmante. Eles queriam era me dar uma licção. Pensavam que, volvidos tantos meses no bairro, eu não fizera amigos por uma espécie de complexo de superioridade. Eu nunca ignorava eu oi ou olá de quem quer que fosse.Eu era apenas timido. O problema era a minha timidez incurável (desde a adolescência que recebia críticas). Devo dizer, porém, que eu não tinha nada a ver com aquela gente. Eles se interessavam por coisas como álcool, drogas, moda e outras futilidades. E a mim interessava-me o estado da minha mísera conta bancária e encontrar alguém que me emprestasse um livro.

 

Feitas as contas, eu me relacionava apenas com a velha senhora. Ela tinha-me certa simpatia. Via-o na tolerância que tinha com os meus atrasos sistemáticos no pagamento das mensalidades e na preocupação que tinha em me arranjar àgua nas semanas em que não jorrava um gota das torneiras. Mas a nossa relação também não era normal: eu falava só português e ela só changana, por isso limitávamo-nos aos bom dias e boas tardes.

 

Deixei de ser tão só quando um gatinho apareceu no quintal. Na verdade eu o vira antes. Fora numa manhã de frio e chuviscos, na rua que antecedia a minha. O bichinho estava encolhido num canto, gemendo. A imagem me comoveu, mas não o prestei os cuidados que a mãe desnaturada o negara. Foi por causa da cor (os meus pesadelos mais terríveis envolviam gatos pretos, e aquele era completamente preto). “Ainda bem que ele é um animal, e não Homem”, pensei eu ao imaginar onde meteria minha cara se ele me pedisse contas por o não ter ajudado num momento tão crítico. Para compensá-lo, na verdade para perdoar-me a mim mesmo, alimentei-o e deixei que ele entrasse no cubículo.

 

Uma semana depois, eramos grandes amigos e dependentes um do outro: ele me mantinha suficiente entretido para não falar e rir-me sozinho, como me habituara, e eu o alimentava com o melhor que tivesse. Mal me visse com um saco plástico, o bichinho corria em minha direcção. (O saco plástico era sempre preto. Eu não queria que os vizinhos soubessem o que eu comprava. Ridículo. Pois na mercearia só se vendia peixe e frango).

 

Eu já pensava em levá-lo comigo no meu hipotético regresso a minha cidade quando, numa certa manhã, a velha senhora disse:

 

― Se o gatinho te incomodar, mande-o embora. Bata-o se for necessário. Eu o comprei para caçar ratos, mas nem para isso ele serve.

 

A verdade era que o gatinho cumprira sua missão: não havia sinal de ratos. Eu era incapaz de agredi-lo, apenas emiti um grunhido para que ela soubesse que eu a ouvira.

 

Mas nem sempre eu podia estar em casa, fosse quando meus amigos se lembrassem de mim e me convidassem para festas ou quando o marido da dona Antónia viajasse. Numa certa manhã, quando eu voltava dum desses lugares, vi a velha senhora fechando um buraco bem na entrada . Sem que eu a perguntasse ela rematou, ofegante:

 

― É o gatinho. Mais uma vez chorou durante a noite toda. Isso é sinal de que vai acontecer algo muito grave com pessoas das minhas relações.

 

A fé da senhora parecia tão firme que achei imprudente dizer: “Chorou por causa de fome. Ele não como há três dias.”

 

Adérito Mazive

 

http://textosdomazive.blogspot.com/



Escrito por blog_oficina às 22h50
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A análise de Maria José Limeira

Um conto de Adérito Mazive

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Esse conto “Só”, de Adérito Mazive, é de uma exuberância sem par, esbanjando criatividade e imaginação por todos os poros, ainda que salpicado de erros de digitação e de enganos ortográficos. (Mas... quem liga? Quem liga?)

Bem, como ia dizendo, é um texto denso, embora explícito, narrado na primeira pessoa (não há de ser nada, em nada prejudica...). A ação é mais interior do que externa. O discurso é de oprimido em crise existencial.

O tema da solidão atinge os últimos extremos, quando o personagem liga-se ao seu animal de estimação, cujo final trágico provoca o vácuo que o início do texto esboçara... Em nenhum momento, o autor perde o fio da meada na arenga do eu (personagem) contra o outro (realidade circundante).

Além do texto em si, o nome do autor chamou-me a atenção (olá, prazer em conhecê-lo!), pois nada sabia sobre o mesmo e precisei entrar no blog dele para conhecê-lo melhor, desvendando a origem de sua escrita que me parecia vir do Português de Portugal, no que estava redondamente enganada, pois vem  de Moçambique.  

(Ah, Moçambique, como eu adoro vossa literatura! Como são lindos e criativos vossos textos!)

Mas, vamos ao que interessa.

Que extremos são esses que levam as pessoas aos desvarios da solidão?

A simples timidez?

A des-esperança?

O não-compartilhar da geléia-geral?

O saldo-negativo da conta bancária?

A falta do que-comer?

Serão os laços-partidos em relação à humanidade passíveis de re-construção?

São essas as questões que o autor levanta em seu texto tão inquietante quanto patético, lançando ao leitor um desfecho surpreendente.

E haja prosa bonita!



Escrito por blog_oficina às 22h47
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Criticando um livro

O AMOR DO REVERENDO

Um livro de Irene Dias Cavalcanti

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Enfim, terminei de ler o romance “O amor do reverendo”, de Irene Dias Cavalcanti, cujo tema gira em torno da paixão (erótica) entre a Mocinha  encantadora, graciosa, cheia de desejos, e o Padre (que devotara corpo e alma a Deus), cujo objetivo era tão somente manter vivos os ensinamentos de Cristo no que tangem a “amai-vos uns aos outros”.

À primeira vista, um romance erótico, do qual se espera cenas de sexo explícito, que aborda uma questão antiga, todavia contemporânea, e termina por revelar os liames de uma sociedade hipócrita, que idolatra a riqueza e despreza os pobres, que cultiva o status quo para manter o poder nas mãos das minorias em prejuízo das maiorias.

Não, não & não.

Não é uma literatura erótica simplesmente, como bem mereceria sê-lo, vindo de uma escritora paraibana que já havia tratado o erotismo com todas as letras em versos livres, em seus livros “Eu mulher, mulher”, e “Lirerótica” entre os anos 1970/80, sendo, portanto, desbravadora, com todos os riscos que o pioneirismo abraça.

É mais crítica social do que o deslumbramento da Moça e do Padre, com detalhes amorosos, às vezes audazes, às vezes ingênuos.

Faz os Bentos tremerem de indignação.

Leva os Santos a conhecerem as profundas dos infernos.

Abre os debates sobre Virgindade & Celibato.

Rasga a máscara da hipocrisia.

Expõe as feridas das corporações a olho nu, sem retoques.

Um livro e tanto! - É como digo desse romance “O amor do reverendo”, de Irene Dias Cavalcanti, que narra a história de Maria Luísa e Padre Abraão, numa união que parece impossível, num tempo em que o preconceito cercava a liberdade da mulher, e quando o padre, mais do que um humano, era reverenciado como se fosse deus, a serviço das classes dominantes.

A mulher que abjurasse de sua submissão aos todo-poderosos de seu círculo social era considerada “puta”.

O padre que optasse pelos pobres, contra o arbítrio dos que tudo podem, era chamado de “comunista”.

É nessa paisagem que a autora desenvolve sua fantasia de amor e ódio, onde não faltam cenas de puro embevecimento, com os gritos e os sussurros dos apaixonados, e onde abundam também escândalos de violência, com o vibrar de tiros de metralhadoras e o impacto de bofetadas.

Como eu dissera antes:

Não é um romance simplesmente erótico, como bem mereceria sê-lo.

É o drama de uma época.

 



Escrito por blog_oficina às 20h47
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Novo texto em debate

 

A Primeira Mulher de Deus

 

Cláudia Magalhães

 

 

Nas primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira, depois de desejar fortemente fugir daquele maldito lugar, a primeira mulher de Deus sentiu nascer do centro das suas costas, um enorme par de asas negras. Descobriu, então, que a liberdade nasce no centro escuro de todas as coisas, onde moram os desejos mais secretos, nas tocas, nos cárceres, nos lugares fechados, onde a saída não é visível ao olhar humano.

Amava Deus com todas as suas forças. Ele, na sua infinita bondade, dera-lhe a vida, e sentia-lhe uma enorme gratidão por isso. Ensinara-lhe tudo. Falou-lhe da existência do diabo, seu maior inimigo, e do seu enorme poder de sedução. Disse-lhe que ele habitava nas terras além do abismo e, que deixar-se seduzir por ele, só lhe traria grande dor, grande tormento. Inexplicavelmente, a partir desse momento, desejou fortemente conhecê-lo. Condenada a viver isolada naquele lugar chamado Paraíso, pensava, dia e noite, numa maneira de atravessar o abismo e fugir da solidão.

Certa noite, deixou-se cair sobre a terra úmida e ficou contemplando o céu vestido de estrelas. Leve-me com você!, Pensou ao observar uma delas cair. Nesse momento, sentiu o seu corpo elevar-se do chão. Um enorme par de asas negras, úmidas de sangue, nascia em suas costas. Sem raciocinar sobre o ocorrido, sentiu-se carregada para o invisível e, com o coração em febre, alçou vôo pela noite fria, deixando para trás uma chuva rala de sangue. Era a liberdade que se levantava ao vento, que se movia no compasso do seu ventre. Agora, sou eu quem me persigo, pensou, sonhando com um mundo novo, cheio de novas possibilidades. Perdeu-se no deserto. Exausta e com olhar cheio de espanto, viu uma nuvem de poeira tomar a forma de um belo homem. Era ele, o diabo. Ele a olhava de uma maneira que lhe fez gelar os ossos. Estou perdida, pensou desejando fugir dali. Tenho sede, ele falou docemente. Ofereço-te as minhas águas, não para matar a tua sede, mas para roubar a tua calmaria. E, por livre escolha, prendo-me em tuas pernas de fogo, rodeada de respostas. Esta noite, te amarei... Na tua sombra, esconderei os meus medos, aliviarei o meu pranto. Quando a luz nascer, gritarei ao mundo que ressuscitei no gosto das maçãs, respondeu, tentando fugir da solidão. Uniram os seus destinos. Sob o céu aberto, com gosto de vinho, as suas línguas, demoniacamente puras, uniram-se, acendendo fogueiras, penetrando mundos invisíveis, anulando o bem e o mal. Em busca do amor, ela ofereceu-lhe o que tinha de mais sagrado, a sua cruz: a sua boca, o seu sexo e os seus seios. E, nessa cruz, morreu por amor...

Depois de algumas horas, ela acordou. Procurou o seu amor e não o encontrou. As horas de loucuras impensadas deixavam, agora, uma enorme tristeza, um grande vazio no seu coração. Precisava fazer o céu voltar e com ele o seu amor. Procuro aquele que perdi, mas aquele que perdi não me procura, pensou sem desistir da sua busca. Passaram-se meses. Grávida, prestes a dar a luz, ela ainda o procurava. Arrancou-me o coração, os olhos, o sexo! Ávido de sangue, possuiu as minhas carnes e todas as noites, me persegue. Em fuga, o experimentei, e ele nunca mais sairá de mim, porque ferida de amor eu estou!, Pensou mergulhando na loucura.

Nesse imenso vazio, ela trouxe ao mundo o seu filho, o fruto do seu pecado. Em seguida, sentiu-se arrastar, por forças desconhecidas, invisíveis, até uma grande cruz . Nela, com o corpo em chamas, gritou em desespero: Deus, por que faz isso comigo? O amor e o pecado habitam em mim. É esse o meu castigo? O primeiro não me trouxe nada de bom. O segundo, intitulado Satanás, nada mais é que o meu instinto de viver. Por que me criastes imperfeita e com sabedoria? Porque me criastes das fezes, do excremento ao invés do pó puro? Não me livrei da luz, foi ela quem fugiu de mim... Sou feroz no amor como também no ódio. Quando entro numa rixa, não admito insultos. Maldita armadilha! Mesmo que, em minhas sucessivas vidas, queimem a minha anca viva, seguirei em busca do amor... Não tenho saída... Sabes que toda a alma almeja a companhia de outra que lhe complete... Maldito! Trouxestes o amor para o meu espírito feminino e, a partir desse momento, não haverá paz, nem para mim, nem para os homens!...

Nesse momento, o Diabo, observando-a ser consumida pelas chamas, flutuava sobre as águas, refletindo, nelas, a sua outra face, a sua porção divina, a sua imagem de Deus, que satisfeito com a sua criação, sorria, tremendo de felicidade.

 

www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

 



Escrito por blog_oficina às 20h55
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A PRIMEIRA MULHER DE DEUS

Um texto de Cláudia Magalhães

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Nesse texto “A primeira mulher de Deus”, de Cláudia Magalhães, tudo é previsível, desde que parte de uma história bíblica muito batida, e até mesmo mentirosa. 

A autora tentou recriá-la, sem sucesso, mas com uma linguagem rica, de fazer inveja a qualquer escritor de língua portuguesa.

E nisso reside seu melhor mérito, misturando numa só salada o mito de Adão & Eva, com sua maçã envenenada, seu diabo cheio de sensualidade & beleza, etc. etc.

É um texto interessante, e muito bem escrito.

O mais curioso é que consegue  reinventar uma Eva que, além de sensual & bela, luta por sua liberdade como deve acontecer a qualquer ser humano que se preze.

Pode ser que a autora arrisque-se a reestruturar uma Eva em ânsias que, no entanto, ao alcançar a liberdade, encontre pela frente uma “solidão” mais densa & profunda do que seu isolamento original, no qual conseguia apenas monologar ao léu, que o citado “paraíso” não conseguiria conter.

O tema é prosaico.

Mas, o texto é lindo, a começar mesmo do título, “A primeira mulher de Deus”.

Apesar dos senões, gostei.

 

-Continua - 



Escrito por blog_oficina às 20h53
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A primeira mulher de Deus - Continuação

Um texto para se ler e reler......Que imaginação e que poder de trabalhar ideias, e palavras.....Bravo!

Belvedere Bruno

..........

 

Obrigada, Belvedere!

Demorei para te responder, pois como já expliquei, estou sem net em casa, e ainda organizando a casa nova. Uma loucura! Que bom que você gostou! Obrigada pelo carinho de sempre!

Beijos no teu coração, querida.

 

Cláudia Magalhães

Blog: www.teatroclaudiamgalhaes.blogspot.com

 

-Continua - 



Escrito por blog_oficina às 20h51
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A primeira mulher de Deus - Conclusão

Claudia,

Gosto muito de te ler.

colocas nos textos os condimentos necessários a uma boa leitura e és uma

escritora muito boa na prosa.

jinho

ana

..........

 

Que maravilha, Ana, tua atenção! Obrigada, mesmo, querida! Não vejo a hora

de organizar por completo a minha vida e voltar a ler a lista como ela

merece!

Uma delícia receber tuas palavras tão carinhosas!

Beijos e beijos e beijos...

Cláudia Magalhães

...........

 

Claudia,

Eu sei esperar.

beijo

ana



Escrito por blog_oficina às 20h48
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Novos textos em análise

POEMETOS DE ADEMAR RIBEIRO

 

Verso preto   

 

Enquanto os que me bateram

se vão morrendo de cancro,

infarto, gota, escorbuto,

vou ficando por eterno

até o nó do pentelho:

 

- Ainda hoje que puto!

 

..........................

 

Tapa no rosto 

 

O que foi feito

e nunca se apaga

foi feito em agosto.

 

Um poema preto.

 

Estaca no peito.

 

Tapa no rosto.

 

 ...................  

 

 

Estertor

 

Agora que o pasto secou

e os bois se estatelaram,

quem poeta é

pastora a pé,

sem cavalo.

 

Ademar Ribeiro



Escrito por blog_oficina às 23h23
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