blog da oficina literária


Mais um texto em análise:

Sem Rascunho   

 

Veio-me a palavra “rascunho”...

É isso mesmo: “rascunho”…

Não deu tempo de fazer rascunho.

Não deu tempo de ensaiar palavras bonitas.

 

Não deu tempo de comprar um perfume novo,

Ajeitar o cabelo (pode? risos)

Ensaiar gestos no espelho…

Nem dar uma corridinha para sentir-se atleta…

Não teve rascunho…

Isso mesmo, sem “rascunho”!

 

O turbilhão de sentimentos

Pôs-me de ponta-cabeça,

Como dizem os paulistas,

E nem as unhas dos pés tive tempo de aparar…

 

Não teve rascunho e nem terá…

Tudo é novo, diferente,

E completamente desconhecido para mim…

 

Questiono hoje se eu amara antes…

Pois o que sinto agora não tem nada a ver

Com o que já sentira no passado…

 

Meu coração teve de ensaiar, às pressas,

novas batidas, novos ritmos...

A minha mente não teve tempo

De convocar faxineira

Para varrer lembranças esquecidas por lá…

 

A enxurrada da paixão invadiu-me dentro afora

E está lavando tudo…

Acho que terei de aprender novas palavras,

Comprar novos mapas… tudo novo..

 

Não teve rascunho,

Só lamento, meio desajeitado,

Não poder ter preparado um poema rimado,

Metrificado e bem formatado…

 

Não teve “rascunho”...

E nem terá com esse amor urgente

Que arrebata o meu ser sem piedade.

 

Gideon Marinho Gonçalves



Escrito por blog_oficina às 00h11
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Comentário

SEM  RASCUNHO

Um texto de Gideon Marinho Gonçalves

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

É muito bonito esse texto “Sem rascunho”, de Gideon Marinho Gonçalves, onde o autor enfoca essa tal pressa de amar, como veemência de todas as idades, num discurso longo, prolixo que, no entanto, não prejudica o todo.

É um texto espontâneo, escorrido, baseado em clichês, sem ser mesmice, vez que o narrador invoca, a todo momento, a necessidade de inventar novas palavras para definir um novo sentimento de que  é tomado, nada parecido com o que experimentara antes.

Aqui, a grande novidade é o Amor Inesperado, que não teve tempo de se vestir e assim mesmo – nu, despojado, sem enfeites &salamaleques – é aceito como fato inexorável.

É... O texto prova que o amor não precisa de muita coisa para se realizar, como também diz que a Poesia não sobrevive apenas com erudição & construções exóticas & complicações. Também há beleza na simplicidade.

 

http://www.luso-poemas.net/



Escrito por blog_oficina às 00h08
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Mais um texto em debate:

Minha ave de mau-agoiro

 

És pretérito passado,

Na minha vida,

Foste viajante de meu destino,

Minha ave de mau agoiro.

 

És o sentimento que me resta,

Quando na penúria de mim me detenho,

Sempre que trago à alma a lembrança de uma ferida

que sangrou.

 

 

Não sei se a minha razão ainda se lamuria,

Ou se é fraqueza mesmo minha,

Que me faz voltar a ti sem que o tempo me detenha.

 

És minha pena... 

 

beatriz barroso



Escrito por blog_oficina às 20h35
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Outra análise crítica

Esse texto é interessantíssimo, pelo que expressa em relação a certas pessoas que estão correndo atrás e voltando sempre àquilo que lhes faz mal. O eu-lirico aqui se penitencia pela sua falha, sabendo bem que erra ao voltar, mas, sao coisas que só o coração explica.

O que eu mais gostei do texto foi realmente o "fechamento" com esse "És minha pena..." que diz tudo. Pena aqui não é asa de galinha, nem penugem que se usa como alegoria de carnaval. A pena aqui é outra. É a sentença, a condenação, a certeza de que sempre será assim, e seja o que a vida quiser. Um abraço, Saludos, & Parabéns pelo texto lindo. Maria José Limeira.

 

http://www.luso-poemas.net/



Escrito por blog_oficina às 20h33
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Mais um texto em análise:

AVES NOTURNAS

Zélia Nicolodi

 

aves noturnas esvoaçam,

pensamentos que não dormem...

 

comem em minhas mãos frias,

migalhas de fantasias...

 

falam das andanças,

sombrias danças,

fantasias mortas,

apostas perdidas,

idas sem volta,

feridas sem cura!



Escrito por blog_oficina às 20h28
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Mais uma análise crítica

AVES NOTURNAS

Um texto de Zélia Nicolodi

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Bem. Permita-me a doce autora de “Aves noturnas”, Zélia Nicolodi,  esta humilde “análise crítica”.

Trata-se de um texto bonito. Poema, simplesmente poema, com todas as letras de um texto que possa assim ser chamado, com riqueza de metáforas, ritmo, musicalidade, tensão & drama. Tem mais qualidades nele, se alguém puder enxergá-las: leveza, simplicidade, concisão, forma tranqüila & conteúdo de primeira. Tem, principalmente, movimento, como dá a entender a partir do título, que logo se alastra ao longo do texto, com “pensamentos” que “esvoaçam”, “andanças”, “sombrias danças”, “idas sem volta”,  etc. etc.

Tocam-nos profundamente esses pensamentos noturnos que migram para as fantasias de desalentos & melancolias, cujos sintomas se agravam após o pôr-do-sol e chegam ao paroxismo durante as madrugadas. Seres das claridades e das luzes, os humanos & os pássaros têm isto em comum, que a autora do texto expõe com tanta veemência & delicadeza: são seres que se perdem na escuridão desses descaminhos de “idas sem volta”...

É um Senhor Texto!

 

http://www.luso-poemas.net/



Escrito por blog_oficina às 20h26
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Sobrescritos

Cada geração com seu estilo

(Sérgio Rodrigues)

 

Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento.

A platéia riu.

A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer.

O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone.

Quem se recusou a crescer foi você, cara.

Como disse?

Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo menos a decência de esperar isso acontecer antes de me atirar na cara o seu fracasso.

Seguiu-se um silêncio de cristal. O auditório estalava de tensão. Ninguém respirava. Até que o escritor de meia-idade redargüiu:

Viadinho!

E se atracaram. Os dois tiveram chance de encaixar uns tantos cruzados, e o escritor mais velho se distinguiu pelos potentes cotovelaços, enquanto o mais moço manejava com perícia um estilete, tingindo o palco de sangue, antes que entrassem para separá-los. Caiu o pano.

A platéia explodiu num aplauso de puro êxtase.

 

http://sergiorodrigues.ig.com.br/2008/04



Escrito por blog_oficina às 10h51
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Ninar…

 

beirando no sossego e silencio embalo teus sonhos

meus dedos procuram versos entre teus cabelos

num movimento tão lento para não te ir acordar

desperto dentro dos sonhos teus sonhos em mim…

 

são meus sonhos imensos e densos poemas brutos

onde os diamantes recolhem a luz dos dias de sol

quando teus lábios brilham a humidade do desejo

deixando tua língua correr sobre meus versos…

 

minha declamadora favorita com essa graça bonita

de quem escuta a inspiração saí fazendo uma canção

onde os olhos visitam lágrimas mesmo se guardam

esta emoção que apenas derramam na nossa escrita

 

coisa mais bonita ler ver ouvir sentir cá por dentro

os mistérios num festejo benfazejo a se presentear

com essa entrega que só você sabe ou a melodia

capaz de captar seu ritmo de musa que é sibila

 

a cantora popular de trovas ao desafio soltando-se

na verve onde ferve e serve os versos em ebulição

dentro do cálice mais puro onde a transparência dá

uma alegria virtual do poema que abrange seu real!

 

tudo isto em sonhos te digo enquanto bendigo você

com um cafuné gostoso onde gesto encanta canção!

 

Francisco Coimbra

24/05/2008

(num ciclo de tempo que dura o além do momento!)



Escrito por blog_oficina às 22h23
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NINAR...

Um texto de Francisco Coimbra

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Esse poema “Ninar...”, de Francisco Coimbra, é um texto cheio de novidades (“boas novas”), na medida em que introduz um elemento a mais na chamada intertextualidade internáutica, quando se estabelece a esperança num relacionamento a dois.

Em discurso rico em imagens e figuras literárias, o autor usa a linguagem corrida, mas esquece os sinônimos delas incluídos nos dicionários, emprestando-lhes  outros significados, de uma beleza sem par...

É o que conseguimos observar neste verso, por exemplo: “meus dedos procuram versos entre teus cabelos” ou, ainda, em “desperto dentro dos sonhos teus sonhos em mim...”

Esse texto é Poesia do começo ao fim.

Das mais belas que já vimos.

A partir mesmo do título que, aliás, mantém o texto coeso e inteiro, tanto em forma quanto em conteúdo, trata-se de fantasia em torno do que poderia ser, sem nunca ter sido, cantoria à distância a uma pessoa amada.

O verbo “ninar”, que em sua versão original  é acalanto e refere-se a criança embalada à hora do sono, aqui tem outro enfoque. 

Refere-se a canção endereçada à amada, musa de sonhos compartilhados...

Embora versando sobre o irrealizável que talvez  se realize, não é um texto triste.

Antes é uma mensagem de esperança, de expectativa, de espera, de aguardo,  como se essa esperança já fosse, ela mesma, o desejo realizado.

Não vemos no texto o macho em posição de ataque, pronto a se lançar sobre a mulher-presa.

Não.

Nada disso.

O que se vê é o homem-menino em contemplação, pronto para dar e receber o carinho que nasce da alma, com a delicadeza  dos pássaros...

Esse texto é muito bonito.

Tem metáfora.

Tem música.

Tem dramaticidade.

Tem metalinguagem.

Tem, sobretudo, sensibilidade de um autor, o doce Poeta Francisco Coimbra, quando fala de “uma alegria virtual do poema que abrange seu real!”

Bem que dissemos antes:

Trata-se de um texto alegre, onde a esperança é, ela mesma, um desejo realizado.

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).



Escrito por blog_oficina às 22h21
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ENCERRAMENTO DE NOSSA OFICINA LITERÁRIA

Comunicado

 

Comunicamos a todos os associados de nossa  Oficina Literária que, a partir desta data,  26 de Maio de 2008, encerramos as atividades desta linda lista, após 6 anos de atuação de um trabalho produtivo e intenso que fez escola na Internet.

O motivo de nossa decisão é que precisamos dar continuidade à nossa obra literária. Pois estamos com 3 livros inéditos para os quais vamos batalhar publicação. Havíamos abandonado nossos projetos para dar atenção a este espaço enquanto ele teve sentido.

Outrossim, lembramos que nossa decisão é irrevogável.

Os amigos cadastrados em nossa linda lista não precisam se preocupar em se desligar pelo unsubscribe. Serão excluídos pela Moderação através das ferramentas do egroups, sem mais delongas.

Sentiremos saudades de todos vocês.

Obrigada a todos por aceitarem nossos desafios.

Saludos.

Maria José Limeira

Proprietária e Moderadora da Oficina Literária

 



Escrito por blog_oficina às 05h19
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Em discussão:

Crítica à crítica

 

Devemos tentar extrair o bom do mau que o mau sempre contém . E o bom do mau que na lista aconteceu foi que nos obrigou a fazer uma reflexão sobre a crítica . Aí vão uns farrapos da minha-reflexão- :

 

Não faço crítica . Julgo que fazer uma crítica bem feita dá muito trabalho . E não tenho a certeza se a minha crítica valeria a pena . Prefiro fazer mais um poema e aqueles que não gostam dos meus poemas certamente não ganhariam com a troca . Já uma crítica à crítica é outra coisa principalmente se tivermos o cuidado de criticar a crítica e não uma crítica. É certo que eu conheço mais ou menos os ingredientes com que se cozinha uma crítica . Sei mais ou menos a diferença que há entre uma metáfora e uma imagem . Sei mais ou menos o que é uma metonímia e o mesmos em relação aos outros tropos da linguagem

Só não sei se seria capaz de dosear sabiamente estes conhecimentos sobre um texto concreto . E se seria capaz de ponderar os outros imponderáveis elementos que um texto concreto tem de ter principalmente se seria capaz de avaliar da maneira como o autor se apropriou do assunto e o tratou como se estivesse a desvestir-se. Porque isso é que é escrever bem .

E não sei se seria capaz de arrostar com o desagrado do autor que sempre veria como uma invasão o meu labor crítico.

É certo que os autores sempre ficam agradados quando a crítica é favorável . Mas tudo isso é superficial porque, sendo a leitura do crítico sempre diferente da leitura própria, o autor consciente não poderá deixar de notar isso desagradavelmente. Ou seja : Apesar de tudo quanto alguns autores dizem em contrário, nenhum autor se considera menos do que o melhor do mundo. Alguns autores, concedo, poderão considerar que outros foram

melhores -do que eles são no momento- mas nunca que outros autores são melhores - o tempo do verbo ser é completamente essencial – permita-se-me a repetição  da ideia-. E sendo eles os melhores, a melhor interpretação é a sua e uma interpretação diferente num

texto seu não poderá deixar de ser vista como uma invasão.

Também sei que muitos autores dizem que quando escrevem, ou quando publicam um texto, se desligam dele e assim podem vê-lo criticado à vontade mas isso é outra balela.

Mesmo que um autor repudie um texto que escreveu nunca deixa de o considerar seu porque no fundo é ele mesmo.

A nossa sina é esta : Nunca nos conhecemos bem, ouvimos dizer, mas conhecemo-nos como ninguém nos conhece e não temos a possibilidade de transmitir tal pensamento . È certo que tentamos e a essa tentativa chama-se escrever -no sentido literário, é evidente-. Vivemos encerrados dentro de uma concha que nenhum bivalvelista – a palavra não existe mas não importa- apanha algum dia .

E resulta daí que a crítica é uma actividade inútil e até deletéria ? Certamente que não se o crítico tiver em consideração que escreve para todas as pessoas excepto para o autor . A função do crítico é contribuir sabiamente para a formação de leituras tanto quanto

possível aproximadas -das do autor, pensará o autor .

Os críticos são valentes . Vivam os autores.

E não me venham com críticas . Podem fazê-las para os outros. Eu vou lê-las sorrateiramente.

Geraldes de Carvalho

 



Escrito por blog_oficina às 00h06
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Sobre “Crítica à Crítica”

Belíssimo texto sobre Crítica, que estou levando também para a minha Oficina Literária, se o autor me autorizar... Trata-se, porém, de um texto um tanto "reacionário", vez que não trata a Crítica como um todo, mas somente o lado que "desagrada"  ao autor. Mas... o que seria dos autores se não fosse a crítica? A Crítica é a ponte entre o consumidor de arte e o autor. Vamos transportá-la para as obras da arte cinematográfica, por exemplo. Como vou saber se o filme é bom (ou de que se trata) se não tiver alguém (o Crítico) para me orientar e me dar indicações sobre o mesmo? Não vou sair de casa para ver um filme ou uma peça de teatro, nem vou comprar um livro apenas por causa do título sugestivo da obra. Isso a gente faz quando não tem critério nenhum... Um abraço, e obrigada pela sua colaboração positiva a este assunto inquietante. Saludos. Maria José Limeira.

 



Escrito por blog_oficina às 23h58
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Outro texto em debate:

o gesto que no corpo se modela

 

 

uma rosa anuncia a madrugada

brilhante labirinto seda pura

Maria Henriques

 

 

ó  e que rosa tem o teu cabelo

que dança no balanço da aventura

quebrando na medida da cintura

o aroma que desprende do seu pólen

 

e como frágil pó, o suave líquene

passeia cada pétala no corpo

como se fossem os lábios no copo

bebendo a sede com um tal desvelo

 

na madrugada anunciada o brilho

com precisão traça o rigor o trilho

da seda pura que de ti desnuda

 

o molde que se descobre sob ela

um suave toque de carícia muda

o gesto que no corpo se modela

 

um só  sentido: o olhar que de ti cuida.

 

josé félix

2008.3.28

 



Escrito por blog_oficina às 15h46
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O gesto que no corpo se modela - Cont.

O GESTO QUE NO CORPO SE MODELA

Um texto de José Félix

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Sobre “O gesto que no corpo se modela”, de José Félix, pode-se dizer que é um texto rico em metáforas,  tão rico, mas tão rico, que se transforma num poema denso,e não se abre à primeira leitura. Parece um soneto àmoda antiga, ao qual se acrescenta mais um verso, a concluir o  discurso dos olhares de um observador-narrador anônimo e taciturno, numa platéia de cadeiras vazias. Mas, o ribombar do seu silêncio ressoa, como os atabaques das  baterias das escolas de samba em desfile na avenida... E haja Rio de Janeiro!

Há uma seqüência associativa. Origina-se da epígrafe de Maria Henriques (belíssima!), e justifica o conteúdo do texto que se desenvolve cheio de novidades e surpresas...

(Esse vocativo – “ó” – que poderia incomodar muita gente boa, e parece solto no ar, não está solto coisa nenhuma, e não me incomoda nada. Ao contrário! Mantém-se sóbrio e elegante...).

Esse texto se realiza plenamente, dentro do que chamamos de  grandes possibilidades da linguagem poética: figuras de linguagem,, de construção e de pensamento.

De início, temos, portanto, um “corpo” de mulher que é todo “rosa” (ou “flor”). Depois, vem o “cheiro”  que o corpo desprende na cadência dos movimentos da  cintura (ah, o pólen... o pólen!!!, a pétala que passeia...).

Etc. etc.

Um texto poético se constrói a partir do imaginário, que os leitores podem (devem) adivinhar por entre nuances, sugestões e sutilezas que o autor coloca como enigmas a serem decifrados.

Esse poema de Félix é um belo exemplo disso 

Abre-se a várias interpretações.

A linguagem é culta, coesa, num texto conciso, onde tudo parece estar nos conformes, sem sobras ou faltas.

É mais um bom poema desse autor lindo para eu guardar na minha coleção.

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)



Escrito por blog_oficina às 15h43
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O gesto que no corpo se modela - Cont.

Mais uma vez, a poesia solar de José Félix (nem quando nos fala da  morte deixa de o ser...) vem ao meu encontro, repleta de musicalidade, graça  e leveza. Quase sempre com palavras simples, o autor constrói "brilhantes labirintos", onde vale a pena "perder-me", porque nunca saio deles como entrei. Trago sempre comigo aquele "mais" que a sua Poesia nos dá.

Numa linguagem rica e muito sugestiva, o Poeta traduz, magistralmente, a transfiguração da rosa num corpo de mulher. A partir de um vocativo ("ó") que logo atrai a atenção do leitor  e introduz o deslumbramento ("... e  que rosa tem o teu  cabelo"), o eu poético fica disponível para os  estímulos provenientes da beleza de um corpo feminino:  os requebros de cintura, "o aroma que se desprende do seu pólen", a sede, a "seda pura que de ti desnuda/o molde que se descobre sob ela"...

É também de salientar o uso do presente do indicativo que não só realça a vida e  o movimento  deste sensual quadro, como nos dá o momento  presente da fruição da beleza. A adjectivação é, também, muito expressiva e rica de sensações tácteis:  "suave líquene", "seda pura", "suave toque",  "carícia muda". E esta sensação de esplendor que a figura feminina provoca no  Poeta culmina num verso magnífico: "um só sentido: o olhar que de ti cuida".

Um belo poema levou à criação de um outro não menos belo. Gostei muito.

Parafraseando  Francisco Coimbra, "para mim, a boa poesia (...) é  pasmo, espanto, admiração".

Obrigada, Félix.

 

Maria João Oliveira



Escrito por blog_oficina às 15h40
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